Em pleno verão, nos meses de Julho e Agosto, a luta dos trabalhadores não tirou férias, e duas delas destacaram-se: a luta dos estivadores e a da Groundforce/TAP. Como elementos comuns, em ambas evidenciaram-se acções de protestos mais radicalizados, como foi a manifestação dos estivadores em frente à Assembleia da República, durante o dia de greve, e, na Groundforce/TAP, a manifestação dos trabalhadores em piquete que entraram na Aerogare.
Ambas preocuparam o governo Sócrates, que logo tratou de intervir directamente, contactando os dirigentes sindicais. No caso da luta dos estivadores, a manutenção do pré-aviso para nova greve dos portos e a probabilidade de radicalização do conflito levou a que o governo PS optasse por adiar para a próxima legislatura a votação da lei que motivou esta greve. Tratou-se de uma vitória parcial da luta, demonstrando a força e capacidade de mobilização deste sector de trabalhadores portuários.
No caso da Groundforce/TAP, a mobilização dos trabalhadores não foi organizada pelas direcções sindicais, mas, sim, por um grupo de trabalhadores em colaboração com alguns membros da Comissão de Trabalhadores (CT).
A atitude dos dirigentes sindicais da Groundforce/TAP (quer CGTP, quer UGT) foi a de capitulação total ao governo e à administração da TAP, o que se concretizou na imediata suspensão da greve, a meio do primeiro de quatro dias previstos, e na assinatura de um protocolo que nada garante no que respeita à manutenção dos postos de trabalho (nem dos precários nem dos efectivos) e que aceita a privatização total da empresa. Neste caso da Groundeforce, o processo ainda decorre, pois a revolta de muitos trabalhadores contra este “protocolo” coloca a possibilidade de se retomar a luta.
Os efeitos da crise capitalista e a sua profundidade ainda não se mostraram totalmente. Até agora, a crise já causou a destruição de postos de trabalho e muitos outros prejuízos aos trabalhadores, mas a sua reacção ainda não se materializou numa luta forte, apesar de alguns elementos (como os das lutas acima referidas) mostrarem que uma resposta firme é possível, mesmo com direcções que puxam para trás.
De igual modo, a contestação dos trabalhadores às políticas do governo PS/Sócrates é muito grande e vai expressar-se novamente nas eleições legislativas de 27 de Setembro. Para que essa justa contestação não seja capitalizada pela demagogia do PSD ou CDS, um factor decisivo será a existência de lutas neste período eleitoral.
Os trabalhadores e a população pobre, quem mais sofreu com este governo PS, exigem uma real mudança política que só uma esquerda que combate a política capitalista poderá fazer. É necessário que seja feito um compromisso claro da esquerda socialista, o de não colaborar por nenhum meio para permitir a existência de um governo comprometido com a política capitalista. É neste sentido que se deve reforçar a votação no Bloco de Esquerda.
O debate eleitoral entre Francisco Louçã e Jerónimo de Sousa, realizado na SIC no dia 3 de Setembro, mostrou a todos que perante as questões que são decisivas neste momento – o enfrentar a grave crise económica e a profunda crise social – existe grande convergência nas propostas, como foi, aliás, admitido por ambos. A necessidade objectiva dos trabalhadores e do povo pobre exige a aplicação de uma política anticapitalista contra a crise que seria possível apresentar como alternativa governativa apoiada por uma convergência do Bloco de Esquerda, do PCP e do Movimento Sindical.