
Os funcionários públicos em Portugal têm sido dos sectores mais castigados pelas políticas de austeridade. Tudo em benefício do cumprimento do sacrossanto défice do Estado que tinha que forçosamente (imposição da União Europeia) ser reduzido abaixo dos 3% do PIB. No seio dos mais de 700.000 funcionários públicos existem perto de 150.000 professores, um corpo sócio-profissional com tradição de luta e organização mesmo que passem largos períodos de refluxo político e social.
Os professores foram dos primeiros, senão os primeiros (e não por acaso), a darem sinais que já estavam fartos de serem o bode expiatório dos políticos de turno no governo para reduzirem o défice do Estado. Os discursos oficiais de vários dos ministros da educação e primeiros-ministros foram sempre o mesmo: os professores são uns calões, só faltam às aulas, têm inúmeras regalias (tipo administradores do BCP e da CGD, estão a ver…), um fartar vilanagem, portanto. Havia que os pôr em ordem.
Na verdade, o que os governos do PS e do PSD/CDS) queriam era poupar uns quantos milhões à conta do sector da Educação (e da Saúde), daí o congelamento de carreiras, o congelamento na colocação de novos professores e o processo de avaliação actual que travará (e fará poupar ao Estado mais uns milhões) o acesso ao topo da carreira a centenas de milhares de professores.
Afirmámos neste jornal que a partir da manifestação (mais de 30.000 professores) em 5 de Outubro de 2006 (em Lisboa) se tinha aberto uma nova conjuntura política nacional, logo confirmada ao longo do ano de 2006 e 2007, através de manifestações com mais de 100.000 trabalhadores, manifestações massivas que há muito não se viam em Portugal.
Mais recentemente, os trabalhadores da Valorsul, em Lisboa, com uma greve de vários dias e com piquetes à porta da empresa, emprestarem à nova conjuntura traços que também já não se viam há muito. Mais combatividade, regresso dos piquetes às mobilizações e até alguma espontaneidade, em que os sindicatos (por ausência de alternativas político-sindicais mais combativas) foram mais a reboque (e já agora para enquadrar e até fazer retroceder) do que a vanguarda destas novas mobilizações.
E eis que chegamos a Janeiro de 2008 e, de novo, os professores a confirmarem que o país já não vive a mesma situação política de há dois anos. Desta feita, várias manifestações espontâneas por todo o país foram convocadas por fora das estruturas sindicais e até começaram a surgir estruturas de organização à parte das direcções tradicionais dos sindicatos.
Quando em Leiria reúnem-se centenas de professores auto-convocados, quando, em Viana do Castelo, 3.000 professores saem à rua por si próprios e em dezenas de outras cidades acontece o mesmo estamos perante um novo fenómeno que abre caminho para o aprofundamento da contestação social.
Sem falsa modéstia fomos dos primeiros a assinalar que o país vivia uma nova conjuntura nacional e daí termos sido dos primeiros a reivindicar a convocação de uma greve geral no país quando a CGTP ainda nem o pensava fazer, e o BE, pela voz de um dos seus dirigentes (Victor Franco), publicou num boletim sindical do Bloco (o Participação) um artigo contra a greve geral.
Ainda há um mês, nem PCP nem o BE pediam a cabeça do ministro Correia de Campos e já milhares de populares o exigiam em concentrações contra o fecho de serviços de urgência e SAPs. O jornal do BE de apoio à campanha em defesa do Serviço Nacional de Saúde não só não pedia a demissão do Ministro da Saúde (duas semanas antes de este ter sido substituído) como a crítica mais dura que reproduzia foi a de que (sic) este ministro “não sabia fazer bem as contas”.
O Ruptura do mês de Janeiro, na capa e em artigos centrais, colocava precisamente na ordem do dia a exigência da queda do ministro bem como a convocação de uma nova greve geral para fazer retroceder Sócrates e o seu governo. A esquerda alternativa, para que o seja, deve exigir de imediato a demissão da ministra Maria de Lurdes da pasta da Educação. Por outro lado, e do ponto de vista estratégico, já se abriu a discussão sobre qual o governo alternativo ao actual estado das coisas.